O Banquete da Graça: Vivendo o Amor e a Comunhão do Pai - Versão texto
O Banquete da Graça: Vivendo o Amor e a Comunhão do Pai
Tema: Os Filhos Perdidos: A Graça que Restaura e a Comunhão que Alegra
Texto Base: Lucas 15:11-32 (NVI)
Carlos Rodrigo Perdonsin
Introdução:
A parábola que estamos abordando é bastante conhecida, até fora dos círculos da igreja, sendo mencionada em músicas, livros, contos, etc. A parte mais famosa da história é a do filho pródigo, o filho mais novo que vai embora. No entanto, ao estudarmos a fundo, podemos perceber que ambos os filhos estavam perdidos. Por isso, acredito que um título mais apropriado seria Os Filhos Perdidos.
Essa parábola divide a humanidade de forma clara, mostrando dois grupos principais. O filho mais novo se afasta de Deus e vive de maneira degradante, buscando satisfazer sua carne através do pecado (Gl 5:16). O filho mais velho, por sua vez, fica em casa, confiando em sua própria justiça e tentando, de alguma forma, "comprar" o amor do Pai, também satisfazendo sua carne ao buscar justificar-se pelas obras (Mt 6:1-14).
A Bíblia conta que o pai dividiu sua herança entre os dois filhos, e o mais jovem foi para uma terra distante, onde desperdiçou seus bens em uma vida de excessos. Chegou a apascentar porcos e até desejou comer a comida deles. Considerando o contexto judeu da parábola, podemos imaginar o nível de degradação em que ele se encontrava.
Dentro desse contexto, podemos também relacionar outras parábolas: a da ovelha perdida e a da dracma perdida. O filho mais novo da parábola representa os publicanos e pecadores mencionados em Lucas 15:1. O filho mais velho simboliza os fariseus e mestres da Lei, que murmuravam porque Jesus estava convivendo com os pecadores.
Sem dúvida, todos nós nos identificamos com esses dois personagens em algum momento da nossa vida. Este é um dos textos que mais Deus tem ministrado ao meu coração ao longo dos anos.
I – ENTRE NA FESTA DA GRAÇA: O AMOR DE DEUS É PARA VOCÊ!
Em Lucas 15:25-28, o filho mais velho estava no campo e, ao se aproximar de casa, ouviu música e dança. Perguntou a um dos servos o que estava acontecendo e recebeu a resposta de que seu irmão havia retornado e que o pai havia matado o novilho gordo para celebrá-lo. No entanto, o filho mais velho ficou com raiva e se recusou a entrar. O pai saiu e insistiu com ele.
Quando não reconhecemos que todos somos pecadores, nos afastamos da verdadeira alegria que a graça de Deus nos proporciona (Lucas 15:32). O filho que permanece em casa, mesmo tendo recebido sua parte da herança, pode, à primeira vista, parecer aquele que está realmente salvo. Inicialmente, parece que o filho mais novo está errado e o mais velho está certo. Inclusive, a maior parte das mensagens que ouvimos durante nossa caminhada cristã tende a se concentrar no filho mais novo, como o título usado pelos editores bíblicos: O Filho Pródigo sugere.
Muitos de nós hoje somos filhos ou até netos de cristãos, e muitos, como eu, nunca "nos desviamos", mas vemos outros se desviarem. No entanto, isso nem sempre é fruto de uma verdadeira conversão, mas de uma ideia de que somos bons por nós mesmos, e não como os outros, publicanos e pecadores (Lucas 18:9-14).
Passamos nossa vida na igreja, cumprindo nossa agenda de afazeres e ministérios, muitas vezes olhando pelas redes sociais a vida de antigos irmãos que agora estão desviados. Quando alguém nos pergunta deles, normalmente citando uma falta dos mesmos, nossa resposta já está pronta: "Este aí é um desviado".
O filho mais velho estava ali, anos a fio, trabalhando nas terras do Pai, suando e sofrendo, mas sem experimentar a alegria que a graça oferece. Quantos estão na mesma situação? Eu mesmo já estive.
A graça gera em nós um misto de alegria e consternação. Quando li O Peregrino, de John Bunyan, eu não entendia direito aos 17 anos, na parte que simplesmente ele olha para Jesus Crucificado, e o fardo simplesmente cai de seus ombros. Lembro também de quando li a vida de David Brainerd, missionário entre os índios da América, ou quando John Wesley considerou sua conversão após ler o comentário de Lutero sobre Romanos.
Eu também passei por isso. Cresci na igreja e pensava que não tinha tido nenhum grande desvio, até que algo mudou. Já havia tido encontros com o Senhor, levado pessoas a Cristo e batizado, conhecia a história da redenção, mas quando olhava para meus sermões, percebia que a salvação era pouco mencionada, a graça, ainda menos. Eu vivia numa servidão de regras e desejos reprimidos, achando que isso era servir ao Senhor, no fundo, era um escravo da minha própria religiosidade.
Foi quando comecei a estudar Gálatas, então percebi que eu estava vivendo como um legalista afastado do amor de Deus. De Gálatas, fui para Romanos e o véu caiu. Eu não era o filho que foi embora e gastou os bens; eu era o legalista, cheio de raiva e rancor, um irmão mais velho como o da parábola.
Quando os fariseus e escribas viam outros pecadores sendo aceitos por Jesus, o sentimento era de indignação. Quando o irmão mais velho da parábola ouviu sobre a festa, ele sentiu raiva, pois pensava: "Tudo que é do Pai é meu, por que ele está celebrando o retorno desse filho pródigo?" Mas o que ele não entendia era que a salvação é um presente de Deus, um ato de graça.
Quando o filho mais novo voltou, o Pai foi ao encontro dele. E, quando soube que o filho mais velho não queria entrar na festa, também foi ao seu encontro. Deus ama você, mas, independentemente da sua posição, todos precisamos da graça de Deus. O filho pródigo precisava reconhecer que não era digno de ser filho, e o filho mais velho também. Mas, o amor do Pai é para ambos, e Ele os chama de filhos.
II – Não Rejeite a Mesa da Comunhão!
Ao se recusar a participar do banquete da comunhão, o filho mais velho demonstra seu distanciamento. Ele se recusa a se relacionar com o irmão que voltou, preferindo focar nos erros e pecados dele, em vez de ver a situação com empatia e compreensão. Este é um sentimento que ele não conhece ou, talvez, recusa-se a reconhecer.
A empatia é uma característica essencial para todo servo de Deus. Moisés, por exemplo, expressou essa empatia quando, ao ver os hebreus sofrendo no Egito, se colocou no lugar deles. Em Êxodo 2:11, lemos que, ao crescer, ele foi até o local onde seus irmãos trabalhavam e testemunhou o sofrimento deles. Ele também viu um egípcio maltratando um hebreu. Mais tarde, em Êxodo 32, quando Deus anunciou a destruição do povo, Moisés se colocou à frente deles, intercedendo em favor de Israel. Ele sabia a importância de se colocar no lugar do outro.
Deus, em Sua infinita sabedoria, criou uma família diversa. Essa diversidade é algo precioso. Recentemente, meus filhos me questionaram sobre algo relacionado à nossa fé, e isso me fez refletir ainda mais sobre como Deus usa até mesmo os filhos para ministrar no nosso coração.
Somos todos irmãos, e um dos maiores laços que nos une é o sangue de Cristo. Não devemos aceitar que falem mal uns dos outros, pois isso fere a unidade que devemos ter em Cristo. Jesus nos ensinou isso de maneira clara, como em Mateus 12:11, quando questionou os fariseus sobre sua atitude em relação a um homem com a mão atrofiada. Eles não conseguiram se colocar no lugar do homem necessitado, focando apenas na letra da lei. Jesus, porém, nos ensina que "o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Marcos 2:27). É essencial que, em nossa vida cristã, sejamos capazes de nos colocar no lugar do outro, até daqueles com quem temos mais dificuldades de lidar.
Eu, pessoalmente, também tive dificuldades com a ideia de células. Não era contra a visão da igreja, mas tinha receio de que minha privacidade fosse invadida. Quando começamos a reforma na nossa casa, minha esposa sugeriu usar uma das salas para células. A princípio, fui contra a ideia, dizendo que o lugar para as pessoas era na igreja, não em minha casa. Contudo, anos depois, abri minha casa para uma célula, e o local escolhido foi justamente aquela sala que eu queria para mim. Hoje, posso afirmar que foi com alegria que fiz isso, e não por obrigação.
O lugar onde eu queria estar sozinho se tornou, paradoxalmente, o local onde fui mais abençoado. Quando estava passando por um período difícil, angustiado, e sentia que estava sozinho, os irmãos da célula chegavam, começávamos a louvar, e Deus estava ali, renovando minhas forças.
Muitas vezes pensamos que não precisamos de ninguém para caminhar conosco, mas o fato é que o irmão mais velho da parábola, que alegava nunca ter violado os mandamentos, violava o mandamento principal: "Quem ama a Deus, ame também seu irmão" (1 João 4:21). Quando nos afastamos da comunhão uns com os outros, nos privamos do amor e do cuidado de Deus, pois Ele usa as pessoas ao nosso redor para nos cuidar e para que possamos cuidar uns dos outros com Seu amor.
Não acho que todos os cristãos tenham a obrigação de abrir suas casas para células, mas quando o fazemos, nossa percepção do Evangelho se transforma. Nos Evangelhos, vemos a casa de Pedro, a de Mateus e a de Zaqueu sendo locais de encontro e comunhão. Em Atos, vemos as casas de Priscila e Áquila, e de Lídia, onde a primeira igreja da Europa provavelmente começou. Após abrir minha casa para uma célula, passei a entender esses textos de maneira mais profunda.
Portanto, esteja disposto a amar e a ser amado. Abra-se para a comunhão com os outros, pois o amor e o cuidado de Deus se manifestam de maneira única quando vivemos em comunidade
III – Aproveite, o Banquete é Completo!
Lucas 15:29-31 – "Mas ele respondeu ao seu pai: 'Olha! Todos esses anos tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos...' O pai, porém, lhe disse: 'Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu.'"
O irmão mais velho diz: "Tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço". Essa frase revela uma percepção equivocada sobre seu relacionamento com o pai, como se sua dedicação fosse uma obrigação árdua, em vez de um ato de amor. Ele não compreendia a abundância do amor do pai, que estava sempre disponível para ele.
Reflexão sobre a Viagem
Se já passou mais de 35-40 minutos, pule esta reflexão.
É uma reflexão simples, mas bem-vinda. Imagine que você decide comprar um pacote de viagem: 7 dias em um resort. Sabendo que os custos extras de alimentação são elevados, você leva sua própria comida. Mas, depois de alguns dias, sente uma forte vontade de tomar um café. Afinal, café é caro fora de casa. No quarto dia, você escolhe a menor xícara e, ao saborear o café, sente um prazer imenso. No entanto, ao pagar a conta, descobre que tudo estava incluso no pacote!
O que é o Pacote Completo?
O pacote completo de Deus é muito mais do que a visão reduzida e distorcida do evangelho da prosperidade, que reduz o evangelho à conquista de bens materiais e saúde física. O que Deus oferece vai muito além disso. Desfrutar do que Deus tem para nós, conforme ilustrado nesta parábola, é experimentar o Seu amor através da graça, um favor imerecido.
A maior bênção que podemos desfrutar nesta vida é a graça de Deus. David Brainerd, conhecido por seu temperamento melancólico, costumava contemplar profundamente essa graça divina. Todos nós somos servos de Deus porque fomos comprados por Ele. Não pertencemos a nós mesmos, mas a um reino de amor.
Devemos servi-Lo com amor, pois sem amor, o trabalho se torna apenas ativismo. E com o tempo, o ativismo se transforma em um fardo pesado de carregar. A pergunta de Jesus a Pedro após a ressurreição foi: "Você me ama?" (João 21:15). Isso nos ensina que o amor deve ser a motivação para tudo o que fazemos em nome de Deus.
"Mas tu nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos"
O irmão mais velho se queixa porque nunca recebeu uma festa, embora tenha sido obediente o tempo todo. Mas será que ele conseguiria realmente se alegrar, mesmo que tivesse tido a festa? Muitas vezes, nos afastamos da comunhão com Deus e com os outros porque estamos focados em críticas ou ressentimentos, o que nos impede de desfrutar das bênçãos que Deus tem para nós.
O Convite Final
A parábola termina sem revelar se o irmão mais velho entrou ou não na festa. Mas hoje, o convite está aberto para você.
Deus preparou um banquete de amor e graça, cuidado e carinho.
A Ceia do Senhor é a expressão desse banquete: é o amor de Deus por nós e a comunhão que Ele deseja que tenhamos uns com os outros.
Não deixe de participar. Tudo está preparado, e o banquete é completo!
Mensagem pregada na Pib Curitiba - Campus Uberba
Ceia - 01/12/2024
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